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VALORES
Antes da construção de marcas globais, fui repórter. A disciplina do jornalismo permanece como o pilar central da minha abordagem profissional: pesquisa rigorosa, ignorância estratégica e a busca por insights que moldam o mercado.

O artigo a seguir, escrito sob a direção editorial de  Tony Arcabascio, amigo de longa data e cofundador, apresenta as lições profissionais que definem minha metodologia estratégica hoje.

Tudo o que sei aprendi não sabendo nada: Lições de jornalismo para a vida.

WESC Magazine. New York City, circa 2012.


Há cerca de 18 anos, Jack Hyde, um amado professor de jornalismo no Fashion Institute of Technology (FIT), me ensinou que a chave para ser um bom repórter é não saber nada.

É um conselho precioso. A melhor forma de extrair o máximo de informação de qualquer pessoa é agir de forma leiga sobre o tema. Assumir esse papel convida as pessoas a falarem mais. Nossa falta de conhecimento encoraja perguntas que alguém experiente normalmente não faria, revelando verdades que os insiders prefeririam deixar subentendidas. Não saber exatamente do que você está falando permite que tópicos, problemas e conceitos sejam abordados de formas inéditas.

Um elemento essencial para o sucesso em uma missão de descoberta sob o manto da ignorância é a curiosidade. Quem? O quê? Onde? Quando? Como? ...Por quê? Quando você é ingênuo, não existem perguntas idiotas. Você está lá para aprender, e um novato curioso é um excelente receptor de informações, inclusive das falsas. Por isso, a checagem de fatos (fact-checking) é vital. Enquanto a ingenuidade permite voos de imaginação e criatividade, a checagem te traz de volta à terra. Às vezes, o resultado é tão recompensador quanto um exame de saúde positivo. Outras vezes, é o oposto, e ideias romantizadas são rapidamente congeladas pela verdade.

Antes de se tornar professor, Jack Hyde foi editor do DNR, o extinto jornal de negócios de moda masculina da Fairchild Publications. O DNR é o Adão para a Eva que é o WWD (o Women’s Wear Daily, publicação de referência da indústria, começou como uma pequena seção dentro do Daily News Record). Como professor, ele se orgulhava de lançar carreiras. No meu caso, tomou como missão garantir que eu seguisse seus passos.

Após me encorajar em uma tentativa frustrada de ser editor-chefe do jornal da faculdade, ele me conseguiu um estágio editorial na revista Sportswear International, uma publicação técnica no Garment District de Nova York. Lá, eu conheceria algumas das pessoas mais importantes da minha vida. Era 1993.

Embora eu recebesse diversas responsabilidades temporárias, minhas áreas de foco como repórter eram moda masculina, varejo e marketing. Passei os cinco anos seguintes viajando pelo mundo e aprendendo os meandros da indústria de moda casual. Na Sportswear, minha diligência com a checagem de fatos foi rapidamente testada. Após alguns erros, minha primeira editora, Mary McGuinness (também aluna de Jack Hyde), ensinou-me pacientemente a nunca presumir nada. Ela dizia que, em inglês, a palavra assume (presumir) faz de você e de mim dois asnos ("makes an ASS out of U and ME"). Nunca esqueci isso, embora nem sempre tenha conseguido seguir à risca. Alguns dos maiores erros que cometi na vida foram baseados em suposições motivadas por um desejo autoindulgente de que algo fosse verdade. A lição é: sempre verifique os fatos. Ou não publique. E sempre valide suas fontes. E aqui vai outro clichê útil: “Esperança não é uma estratégia.” Eu sei que esta frase é associada à política, mas ela é real.

“Olhe para tudo com o ponto de vista de um recém-chegado, humilde e curioso. Não presuma nada, verifique os fatos. Acolha novas ideias e defenda a individualidade. Seja respeitoso e honrado...“

O publisher e editor-chefe da Sportswear era Michael Belluomo. Mike foi um dos insiders mais queridos de sua geração na moda nova-iorquina. Veterano do Vietnã, nascido e criado no Bronx, ele era um homem alto com um swagger inconfundível, descontraído e imponente ao mesmo tempo. Usava botas de jacaré pretas para combinar com seu visual diário todo preto. Ele é a única pessoa que conheci que preferia uma marca de cigarro para o dia (Winston) e outra para a noite (Marlboro).

Um leitor voraz, Mike já tinha lido e recortado todos os principais jornais quando sua equipe chegava para trabalhar. Quase todos os dias, por volta das 17h30, seus amigos "garmentos", figurões da indústria, apareciam para discutir negócios e jogar sinuca. Quando coberta, a mesa de sinuca servia como mesa de pingue-pongue que, por sua vez, servia como depósito temporário de amostras para o departamento de moda. Mas por volta das 17h, quando Michael entrava casualmente com um copo de Scotch com gelo na mão, todos sabiam que era hora de limpar a mesa.

Enquanto o Professor Hyde gravou em mim os dogmas do bom jornalismo, Michael me ensinou que ninguém, nem mesmo ele, poderia me dizer que a minha forma de escrever estava errada. Ele defendia a autoexpressão. O ponto de vista criativo de sua equipe inexperiente era vital para a revista. Acredito que uma das maiores recompensas de Michael era testemunhar a visão individual desses jovens sobre o mundo. Ele nem sempre concordava com as ideias de todos, mas encorajava a individualidade de cada um.

Todos nós tínhamos uma reverência profunda por Michael. Éramos seus filhos e ele acreditava em nós. Tínhamos um pouco de medo dele, mas, acima de tudo, éramos gratos pela oportunidade de sermos nós mesmos e de termos uma voz. Mas onde Michael nos dava liberdade de expressão, ele esperava trabalho duro, respeito e lealdade em troca. Se você falhasse em qualquer um desses pontos, estava fora.

O que Jack Hyde e Michael Belluomo me ensinaram ficou comigo. Hoje, ao iniciar um novo capítulo na vida e um novo negócio, lembro-me dessas lições: olhe para tudo com o olhar de quem acaba de chegar, humilde e curioso. Não presuma nada, verifique os fatos. Acolha novas ideias e defenda a individualidade. Seja respeitoso e honrado.

E um novo favorito pessoal para 2012: Puxe gatilhos.


Tony Arcabascio e eu, no final de um dia de trabalho durante a obra da nossa primeira loja da Alife na Orchard Street, no Lower East Side de Manhattan. 1999.

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